Saída pelo porto

Saída pelo porto

Saída pelo porto

VEÍCULO: ISTO É – CADERNO: ONLINE – DATA: 10.08.2020

Em um semestre marcado pelo impacto da pandemia da Covid-19 na economia mundial, o reflexo da recessão global está no resultado da balança comercial brasileira. Ainda que com superávit de US$ 23 bilhões, a queda foi de 10,3% em relação ao mesmo período do ano passado, pior resultado nos últimos cinco anos, segundo o Ministério da Economia. O tombo só não foi maior graças ao excelente desempenho do agronegócio, que observou aumento de 23,8% nas exportações durante os seis primeiros meses do ano. Isso contribuiu para o aumento na movimentação dos portos públicos no período. Segundo a Agência Nacional dos Transportes Aquaviários (Antaq), os terminais portuários brasileiros registraram alta de 5,56% no volume de produtos transportados entre janeiro e maio, com 186,7 milhões de toneladas.

Dos cincos principais terminais no País, quatro tiveram crescimento no período. Nesse contexto, a companhia Santos Brasil, que responde por 37% do market share do porto de Santos, maior terminal portuário da América Latina, planeja investir R$ 220 milhões este ano, para melhorias nos espaços e modernização nos processos portuários. Dessa forma, pretende aproveitar a maré positiva do segmento portuário no País, apesar da crise nacional. “A infraestrutura tem de chegar antes da carga. Em qualquer situação, precisamos garantir que a carga chegue sempre”, diz o CEO da Santos Brasil, Antônio Carlos Sepúlveda. “Vamos garantir mais automação no processo.”

Além dos recursos aportados pela Santos Brasil nas ações de melhorias para este ano, Sepúlveda disse que já está no planejamento, a partir do fim de 2021, um volume de investimentos ainda maior, no valor de R$ 350 milhões, para aumentar em 50% a capacidade de armazenagem do terminal de Santos, num projeto que deve durar pelo menos 18 meses. Um dos caminhos está na diversificação dos produtos carregados. A empresa assinou, em maio, arrendamento por seis meses de área de 42 mil m2 para movimentação de celulose. “Nosso foco não é só o contêiner, e sim solução logística. Podemos expandir os tipos de cargas”, diz o presidente da companhia, que não descarta a participação de outros processos de arrendamento de terminais portuários.

Mas nem tudo é mar calmo nesse horizonte. Se a movimentação de contêineres aumentou em Santos de janeiro a maio, segundo a Santos Port Authority (antiga Companhia Docas do Estado de São Paulo) – passando de 984.419 contêineres em 2019 para atuais 1.061.800 –, a Santos Brasil registrou diminuição no volume.

Foram 384.204 (que transportaram 6,7 milhões de toneladas), ante 405.389 (com 7,4 milhões de toneladas) nos cinco primeiros meses de 2020. Ainda no primeiro trimestre, a empresa de capital aberto, que também tem terminais em Imbituba (Santa Catarina) e Vila do Conde (Pará), além de Santos, registrou receita líquida de R$ 223,8 milhões, queda de 1,5% em relação ao mesmo período do ano passado.

“Refletiu no fechamento dos portos da China. Tinha contêineres para embarcar, mas não era possível. E navios começaram a vir da Ásia um pouco mais vazios”, disse o CEO da Santos Brasil, que movimentou no ano passado 1,16 milhão de contêineres e registrou receita líquida de R$ 972,5 milhões (alta de 5% sobre 2018). O balanço do segundo trimestre será divulgado na próxima semana.

Para o ex-secretário de Planejamento da Secretaria Especial dos Portos, Fabrizio Pierdomenico, o possível aumento da movimentação portuária no segundo semestre está condicionado à melhora na economia como um todo. “A queda nos contêineres está ligada à diminuição nas exportações de produtos de maior valor agregado”, disse. “Ainda que tenhamos sido favorecidos pelo aumento do apetite asiático para recompor suas reservas, principalmente de soja, não temos muito o que comemorar”, afirmou.

CONCESSÕES

Pierdomenico criticou a retomada dos projetos de concessão de infraestrutura pelo governo federal. “Não é o momento ideal. Estamos vivendo uma crise econômica sem precedentes, com encolhimento da riqueza. Ao vender e concessionar ativos agora, o governo pode perder recursos. Além disso, é preciso garantia jurídica para os investidores”, disse. Já para Antônio Carlos Sepúlveda, o andamento do pacote de concessões – incluindo a desestatização do porto de Santos até 2022 – é importante para garantir o crescimento do Brasil, ainda mais pelo horizonte de crise financeira em virtude da pandemia. Mas o presidente da Santos Brasil faz um alerta: “Administração privada é mais eficiente, mas o importante é que essa concessão não colida com os interesses dos arrendatários do porto. Para que dê certo, tudo precisa ser alinhado para que não seja um desastre.” Recado direto ao governo, que não parece demonstrar muito interesse técnico na gestão do maior porto da América Latina, que sempre foi uma antiga moeda de troca política.