Boas perspectivas

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VEÍCULO: PORTOS E NAVIOS  – CADERNO: PORTOS E LOGÍSTICA  – DATA : 16.10.2020

Terminais de líquidos apresentam crescimento na movimentação, mas ainda enfrentam dificuldades logísticas

Apesar da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), operadores de granéis líquidos apresentaram um aumento na movimentação, sobretudo nas exportações de óleo combustível. As incertezas geradas no início da crise em relação às medidas de isolamento e à redução do consumo de derivados de petróleo logo foram sanadas frente ao crescimento nas operações portuárias. Porém, os investidores apontam ainda para a necessidade de mais investimentos em infraestrutura, com a redução da burocracia e de maior segurança jurídica para o aumento da participação da iniciativa privada, bem como a revisão da política de preços praticada pela Petrobras.

Nos seis primeiros meses deste ano houve crescimento de 4,42% na movimentação portuária no Brasil, ante o mesmo período de 2019, conforme dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). A movimentação de granéis líquidos apresentou aumento de 15,51%, enquanto o granel sólido teve crescimento mais tímido, de 2,20%. Portos e terminais privados operaram mais de 134 milhões de toneladas de líquidos, sendo desse total 79,6% movimentados por terminais privados e 20,4% pelos portos organizados. Os maiores destaques na operação de granéis líquidos foram o Terminal Aquaviário de Angra dos Reis (Tebig), operado pela Transpetro, que movimentou mais de 31 milhões de toneladas, e o Terminal Almirante Barroso (Tebar), em São Sebastião (SP), também operado pela Transpetro.

De acordo com a Associação Brasileira de Terminais de Granéis Líquidos (ABTL), que reúne 27 terminais no país, houve aumento entre as associadas de 10% na movimentação de líquidos no primeiro semestre desse ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. O incremento ocorreu em razão, principalmente, das importações de derivados de petróleo e da exportação do etanol.

A expectativa é de que as políticas adotadas pelo governo na infraestrutura e de desburocratização regulatória para atrair investimentos internos e externos continue promovendo o aumento na movimentação do setor. O presidente da ABTL, Carlos Kopittke, destaca que outro ponto positivo para o mercado vem sendo o planejamento de novos arrendamentos portuários para 2020 e 2021. A previsão é que sejam arrendadas áreas para granéis líquidos no Porto de Santos e na região do Arco Norte, que vem despontando como um importante polo nesse mercado. Ele lembra que foram realizadas licitações recentemente em portos do Norte do país e que essa rota logística tem sido uma das mais promissoras para o setor.

O Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do governo federal antecipou para o último trimestre deste ano a previsão de realização dos leilões das áreas STS 08 e STS 8A, no Porto de Santos, na região de Alemoa, destinadas à armazenagem e à distribuição de granéis líquidos. A movimentação deverá ser principalmente de combustíveis. De acordo com a Santos Port Authority (SPA), serão as maiores licitações realizadas no país até hoje. As duas áreas somam investimentos da ordem de R$ 1,4 bilhão por parte dos futuros arrendatários.

A área STS 08 tem 137.319 metros quadrados para armazenagem e distribuição de líquidos. O prazo contratual será de 25 anos e os investimentos previstos totalizam R$ 209,6 milhões. Com a licitação, o Porto de Santos vai ganhar também dois berços para a movimentação de granéis líquidos minerais.

Destinada à movimentação e à armazenagem de granéis líquidos e gasosos, a área STS 08A tem 305.688 metros quadrados. Os investimentos a serem feitos no terminal totalizam R$ 1, 196 bilhão ao longo dos 25 anos do contrato.

 

Além disso, a autoridade portuária destacou que o Plano de Desenvolvimento e Zoneamento (PDZ), recém-aprovado pelo Ministério da Infraestrutura, projeta um aumento da capacidade de granéis líquidos do porto em 40%, ou seja, dos atuais 16 milhões de toneladas para 22,4 milhões de toneladas até 2040. Esse aumento já contabiliza a entrada em operação dos terminais que serão leiloados no final de 2020.

A movimentação de granéis líquidos, de químicos e derivados no Porto de Santos no primeiro semestre do ano foi de oito milhões de toneladas, o que corresponde a 11,3% do total de cargas operadas no porto. No mesmo período em 2019, foram movimentados 7,2 milhões de toneladas. A exportação de líquidos a granel (com exceção de sucos cítricos) foi superior à importação.

Os principais graneis líquidos movimentados na exportação, por ordem de maiores volumes, foram o óleo combustível, óleo combustível de consumo de bordo e gasolina. Com relação à importação, foram operados mais de três milhões de toneladas de líquidos, sendo os principais produtos o óleo diesel e gasóleo, gasolina, soda cáustica e outros produtos.

No primeiro semestre do ano, os portos do Paraná movimentaram 28,1 milhões de toneladas de cargas. O volume total é 13% maior que o registrado no mesmo período de 2019, quando foram 25 milhões de toneladas. Os granéis líquidos representaram quase 13% desse total. Neste ano, de janeiro a junho já foram operadas mais de 3,6 milhões de toneladas de líquidos. O volume é 7% maior que no mesmo período de 2019, com 3,3 milhões de toneladas.

Entre os granéis líquidos de exportação, os derivados de petróleo apresentaram alta de 64%, com volume movimentado de quase 366,8 mil toneladas no primeiro semestre. Óleos vegetais, principalmente de soja, aumentaram 45%. Foram 631,4 mil toneladas exportadas este ano.

A Cattalini Terminais, uma das operadoras de granéis líquidos no Porto de Paranaguá, movimentou 2,2 milhões de toneladas no primeiro semestre deste ano contra 1,9 milhão de toneladas em 2019. Segundo o gerente comercial da empresa, Lucas Cezar Guzen, o destaque até agora têm sido óleos vegetais e derivados de petróleo, diesel e gasolina.

Ele afirma que durante a pandemia o impacto negativo não foi tão expressivo, visto que o terminal trabalha com diversos tipos de granéis líquidos. Ao todo são mais de 30 produtos diferentes, segundo ele. Apesar da queda acentuada no consumo de combustíveis em razão do isolamento social, Guzen destaca como um dos pontos positivos frente à crise a sobra de óleo de soja para ser exportado, em função da redução do diesel. Já o fator negativo, de acordo com ele, foi a queda na importação de metanol. O terminal é líder no país na importação desse produto.

Os granéis líquidos representam 75% da operação do Porto de Suape (PE) e foram os principais responsáveis pelo recorde na movimentação do porto no primeiro semestre do ano. O aumento registrado foi de 17% em relação ao mesmo período de 2019. Do conjunto de cargas operadas em Suape, 22,2% foram de líquidos, com destaque para o bunker produzido na Refinaria Abreu e Lima (Rnest). O aumento na exportação desse produto foi de 94%. Produzido com baixo teor de enxofre, o principal destino do bunker é Singapura.

Mesmo no cenário de pandemia, as exportações de granéis líquidos no primeiro semestre do ano cresceram 101% no porto em relação ao mesmo período do ano passado. Com relação à importação, o aumento foi de 3,14% com destaque para o GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) que teve crescimento de 18% no desembarque, pouco mais de 1,2 milhão de toneladas movimentadas.

O presidente do Porto de Suape, Leonardo Cerquinho, explica que devido à redução de carga das refinarias nacionais e à queda no preço do petróleo, o GLP, que é um subproduto, teve sua produção também reduzida, tornando necessário aumentar as importações, inclusive pelo crescimento da demanda.

Como Suape já é o hub nacional desse produto, houve um grande volume entrando pelo porto e sendo distribuído ao resto do país por operações ship to ship.

Em Suape são movimentados diversos tipos de granéis líquidos como gasolina, diesel, petróleo, bunker de baixo teor, nafta, óleo combustível e químicos como butadieno, MEG, DEG, paraxileno, etanol, GLP e óleo vegetal. Desses produtos, Cerquinho observa maior potencial de crescimento no GLP e no bunker.

Ele informa que existem empreendimentos em fase avançada de estudos para exploração de outros granéis líquidos e alguns com estudos para a ampliação da capacidade de tancagem de GLP no porto. De acordo com ele, Suape dispõe atualmente de cerca de 730 mil metros cúbicos de tancagem, incluindo navio cisterna de GLP. Tal capacidade, segundo ele, está alinhada com a demanda atual. Entretanto, neste momento, um dos terminais está em fase final de ampliação. Serão mais 22 mil metros cúbicos de tancagem. Ele diz que alguns players colocaram suas ampliações em hold até uma definição do mercado em relação à pandemia, e também em relação ao processo de desestatização das refinarias.

A SPA assinou, em maio deste ano, o contrato de arrendamento do terminal STS 13A com a empresa Adonai East, do Grupo Aba Infraestrutura e Logística S/A, para ampliar a capacidade estática do Porto de Santos. Localizado na Ilha Barnabé, margem esquerda do complexo portuário, o STS 13A foi arrematado em leilão realizado em agosto de 2019 com um lance de R$ 35 milhões. A área conta com 38,4 mil metros quadrados e estava sem operação desde 2012, após o fim do contrato com o antigo arrendatário. A nova área deverá ter, segundo o contrato, capacidade estática mínima de 70,5 mil metros cúbicos. De acordo com a SPA, os investimentos estimados a serem feitos pela empresa somam aproximadamente R$ 111 milhões.

Para Guzen, da Cattalini, na logística de granéis líquidos a capacidade estática do porto é fundamental, porém deve ser aliada a toda uma infraestrutura. Por essa razão, ele informa que entre 2019 e 2020 o terminal deu um passo importante nos investimentos de infraestrutura, não apenas em tancagem como também no aprofundamento dos berços, permitindo a atracação de navios maiores, e na ampliação do canal, ambos com a finalidade de aumentar a eficiência no transporte de líquidos.

A ABTL tem observado crescimento no segmento de tancagem no país. Porém, apesar dos investimentos feitos recentemente em algumas regiões, a associação avalia que ainda há uma defasagem no setor em relação ao potencial de importação e exportação do Brasil. Kopittke aponta a falta de infraestrutura como outro gargalo logístico no país. Ele destaca a deficiência de capilaridade das ferrovias no atendimento aos principais portos que movimentam granéis líquidos, bem como nos acessos rodoviários aos portos que têm por vezes se mostrado saturados. Além disso, ele afirma que há pouco incentivo ao transporte marítimo de cabotagem, “mas nesse caso, felizmente com chances de melhoria caso o projeto BR do Mar seja aprovado”, diz.

Umas das barreiras para o avanço da infraestrutura, de acordo com Guzen é o excesso de burocracia. Como exemplo, ele cita os processos de arrendamentos de áreas nos portos organizados que costumam passar por um longo período até serem concluídos. Todo o processo licitatório pode levar até três anos, tempo que excede a própria construção do empreendimento. “Essa burocracia afasta os investidores”, lamenta.

Ele considera ainda que o Brasil também esteja “à mercê” da política de preços praticada pela Petrobras, que detém o monopólio do setor no país. Segundo ele, se comparar a base de preços da estatal com outros países é possível perceber que os valores são bem mais elevados, o que interfere diretamente no avanço do setor de distribuição de líquidos.

A estratégia adotada pela Petrobras sobre política de preços, de acordo com a ABTL, naturalmente provoca reações em todos os setores da economia, porém, a associação não observou grandes pontos negativos com relação às movimentações de cargas pelos terminais portuários associados este ano.

 

O Porto de Suape afirma que faz o acompanhamento semanal de consultorias especializadas, assim como processos em análise pelo Cade, mostrando evidências de que os preços praticados pela Petrobras, hoje, visam (des)incentivar as importações. Para Cerquinho, no momento em que as refinarias forem desestatizadas tal política não será mais viável. “Isso deverá aumentar o fluxo de líquidos em todas as direções, pois não será mais possível coordenar os mercados como é feito hoje”, diz. Segundo ele, as importações tendem a aumentar devido à impossibilidade de controle de preços. A cabotagem deve crescer porque as refinarias desestatizadas vão de fato concorrer entre si no território nacional e até as exportações poderão sofrer acréscimo, considerando que o objetivo deixará de ser proteger o mercado nacional. “É importante destacar também que tudo isso tende a elevar a necessidade de tancagem em todo o território do país”, frisa.

Apesar dessas barreiras, Cerquinho destaca o potencial de crescimento do mercado de líquidos no Brasil, sendo uma das promessas o transporte de GNL. “Ele é o protagonista dos combustíveis limpos neste momento”, pontua. Existem novos projetos com operações iniciadas, inclusive em Suape, onde um terminal de Gás Natural Liquefeito (GNL) está previsto para entrar em operação no primeiro trimestre de 2021. O investimento é da ordem de R$ 1,8 bilhão e o projeto prevê uma infraestrutura de suprimento de gás natural para geração de energia elétrica, além de atender a demandas de indústrias, comércio, postos de GNV/GNL e residências. Isso em parceria com a Copergás, interiorizando a distribuição. “Já recebemos o primeiro lote de dez iso contêineres importados para viabilizar o projeto, de um total de 70 que chegarão até o fim do ano”, conta.

Cerquinho diz que existem ainda novos players com projetos em Suape visando ao abastecimento de usinas termelétricas, principal demanda para esse combustível, em função dos leilões previstos para este ano. A disponibilidade do GNL no mercado internacional, segundo ele, tem pressionado os preços para patamares bastante competitivos. As instalações para esse produto requerem elevados Capex, levando em conta todos os equipamentos envolvidos, dos navios-tanque e regaseificadores a sofisticados sistemas de segurança e infraestrutura de distribuição.

Apesar da recessão econômica que pode estar por vir e que terá efeitos negativos sobre os volumes, ele acredita que o processo de desestatização de alguns ativos da Petrobras e a consequente desregulamentação dos mercados de derivados de petróleo, GLP e GNL trará grande dinamismo ao setor no Brasil. Do ponto de vista do porto, ele avalia que haverá muita movimentação e investimentos no setor, mesmo considerando a situação econômica.

Embora o segmento da ABTL não movimente esse tipo de produto, a associação avaliação que o mercado é muito promissor no país, principalmente para suportar o crescimento da eficiência energética no país. Segundo informação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP), porém, no primeiro semestre de 2020 houve queda de 23,2% na importação de GNL, com relação ao mesmo período do ano anterior. O motivo da redução pode ser atribuído à pandemia do novo coronavírus.

O Terminal Cattalini chegou a especular esse mercado, porém não chegou a gerar interesse. Segundo Guzen, o GNL não é a expertise da empresa, mas ele também observa potencial no setor. Para ele, outro mercado que deve despontar no país nos próximos anos é o de nitrato de amônio diluído em água. Ele afirma que por ser diluído, não há riscos de explosões, como ocorreu na zona portuária de Beirute, capital do Líbano, além de ser mais eficiente. “No Brasil é um tipo de fertilizante muito utilizado nas lavouras. Porém, ainda é um negócio tímido, ainda está sendo explorado, mas tem espaço para crescer”, afirma. De acordo com ele, a exportação do nitrato de amônio diluído em água vem sendo dividida entre os portos e Paranaguá e de Santos, mas a movimentação ainda é pouco expressiva em ambos os portos.